Jovem e talentosíssimo desenhista, Gigi Cavenago é um dos fenômenos da nova safra de desenhistas da Bonelli.

Seu desenho é tão admirado que, em 2016, foi convidado a assumir as capas da série regular de Dylan Dog – posto até então ocupado apenas por Claudio Villa e Angelo Stano.

Nesta entrevista, Cavenago comenta sobre sua relação com Dylan Dog, com a Bonelli e sobre como foi assumir a responsabilidade de produzir capas para um personagem tão importante e cultuado.

A entrevista foi conduzida e traduzida pelo blog Dylan Dog Brasil:

Luigi, você tinha alguma relação com Dylan Dog antes de começar a se interessar por desenho?
Cavenago: Eu li meu primeiro Dylan Dog em julho de 1993, na época eu tinha 11 anos e já gostava de desenhar. Claro, eu ainda não tinha em mente o que queria fazer quando crescesse. Então, podemos dizer que conheci Dylan antes de ter um real interesse por desenhar e na profissão de desenhista.

O que o personagem Dylan Dog significa para você?
Cavenago: Para mim, Dylan é fonte das mais variadas histórias. Em todos esses anos, eu li roteiros muito diferentes – às vezes assustadores, às vezes mais próximos de uma comédia brilhante. No entanto, o protagonista é sempre ele: muito flexível e capaz de lidar com diferentes situações, podendo ser sério e extremamente irônico, triste e despreocupado, grotesco e elegante.

Comenta-se no Brasil que “Mater Morbi” foi uma edição impactante na cronologia de um personagem que já não apresentava o mesmo nível desde a “aposentadoria” de  Sclavi. Uma história que acabou por fugir da mesmice e surpreender o público, ganhando certo culto. Recchioni te convidou para ilustrar “Mater Dolorosa”, edição comemorativa dos 30 anos do personagem e considerada a “sequência” de “Mater Morbi”. Como você se sentiu ao receber este convite? E o que teve de mudar na sua técnica habitual de desenho para ilustrar uma história do detetive do pesadelo?
Cavenago: Para mim foi uma grande responsabilidade desenhar a sequência de Mater Morbi, isto por muitas razões. Antes de tudo, era a minha estréia na série regular – além de algumas capas para a série “Maxi Dylan Dog – Old Boy”, eu nunca tinha confrontado o personagem em uma história de quadrinhos. Também foi me passado o desafio de “seguir os passos” de Massimo Carnevale, que é um gigantesco desenhista! Por fim, a responsabilidade de debutar em um número comemorativo e, finalmente, a dificuldade técnica de fazer 94 páginas coloridas.
Felizmente, Roberto (Recchioni) propôs esta tarefa com um ano de antecedência, então eu consegui me acostumar com a idéia. Até então eu estava trabalhando em Orfani: uma série com um sabor quase “americano”, com uma linha limpa e um traço muito jovem. Em Dylan, esse tipo de desenho não funcionaria, então eu tive que estudar outro estilo de desenho que funcionasse para essa história em específico. Ao fim, algo interessante surgiu: uma alternância entre o desenho habitual e a pintura.

Sabemos que Stano é um dos grandes desenhistas da história de Dylan Dog – talvez o maior de todos. Como foi para você substituir ele na tarefa de fazer as capas da série regular de Dylan Dog?
Cavenago: Não foi fácil e ainda não é fácil. Cresci vendo as capas de Angelo e minhas primeiras impressões foram tiradas de seus trabalhos. Ele é o que melhor definiu o personagem e o tornou icônico. Me esforço mês após mês para estar à sua altura. Além disso, não podemos esquecer de Claudio Villa, que também fez capas memoráveis.

Trabalhar com um personagem clássico como DD não é uma tarefa fácil. Na hora de fazer uma capa, que aspectos são fundamentais para torná-la “digna” de Dylan Dog?
Cavenago: É uma pergunta difícil, também porque muitas vezes o instinto que me guia na hora de desenhar. Eu posso dizer que todo o trabalho começa com as indicações de Roberto e da equipe editorial. Posteriormente, também preciso considerar a história que aparecerá na edição em questão: se nela existem elementos visualmente interessantes, fica fácil que a capa se torne igualmente convincente. Algumas das melhores capas nascem das próprias histórias.

Apesar de ter trabalhado em Jonathan Steele, Cassidy e Orfani anteriormente, você “só” havia desenhado “Mater Dolorosa” e algumas capas do Maxi Old Boy para Dylan Dog antes de ser convidado a assumir as capas da série regular. Você esperava este convite?
Cavenago: Não, absolutamente. Em setembro de 2016, eu tinha acabado de finalizar “Mater Dolorosa’ e estava muito cansado depois de um ano de trabalho intenso. Estava me organizando para fazer pelo menos um mês de férias para me recuperar da fadiga, quando Roberto Recchioni me telefonou dizendo que a tarefa de desenhar as capas de Dylan Dog seria passada para mim.
Fiquei feliz, mas também muito assustado. Me recordo de perguntar a ele se eu poderia, pelo menos, me dar um mês de férias antes, mas sua resposta foi “não temos tempo! Comece a pensar sobre o frontispício que em breve te darei as instruções para a primeira capa!”.

Na hora de idealizar uma capa, que tipo de referências você costuma usar (além do próprio roteiro/argumento)?
Cavenago: Eu faço muitas pesquisas na internet para encontrar referências reais ao que eu quero representar. Se a cena for ambientada em um necrotério, procuro o maior número possível de necrotérios no Google. Eu busco preencher minha cabeça com imagens e, em seguida, tirar uma versão minha de tudo o que eu vi. Às vezes, também faço pesquisas para entender o que não fazer, evitando assim o clichê.
Além do Google, eu também uso referências fotográficas, tirando fotos minhas ou de amigos. Às vezes, é muito importante para compreender as posições dos personagens ou para reproduzir certos gestos com fidelidade.

 

Seu estilo de desenho me faz lembrar o traço de outro grande desenhistas italiano: Ivo Millazzo. Você se inspira nele?
Cavenago: Ivo Milazzo é um excelente professor e gosto muito do seu desenho, mas devo admitir que minhas referências são outras.

Quais outros desenhistas você tem como fonte de inspiração?
Cavenago: Durante anos eu observei muito o desenho de Goran Parlov (que era um aluno de Milazzo), mas também Alex Toth, Mike Mignola, Bernet, Breccia…
Em Dylan, minhas referências principais são Stano, Mari e Dall’Agnol.

Fale-nos sobre Orfani. O que você tem a dizer sobre esta série?
Cavenago: Foi a primeira série da Bonelli totalmente em cores. Depois de trabalhar em  Cassidy (um quadrinho de um estilo mais clássico), foi bom partir a bordo de um projeto tão inovador. Roberto Recchioni e Emiliano Mammucari criaram um mundo fascinante, com personagens que ainda perduram e estão em constante evolução. Foi muito bom trabalhar nisso e foi nessa série que meu trabalho teve o salto de qualidade que me levou a Dylan.

Finalizando: qual fumetti da nova safra da Bonelli que você recomendaria ao público brasileiro?
Cavenago: Certamente “Orfani”. Entre as edições mais recentes, recomendaria “Mercurio Loi” de Alessandro Bilotta. Outra série muito interessante!


Agradecemos imensamente ao Gigi Cavenago pela atenção e desejamos a ele todo o sucesso possível em sua carreira.