Nascido em 26 de novembro de 1936 na província de Bolonha, Giuseppe Montanari – que desenha em parceria com Ernesto Grassani – é um dos maiores desenhistas da história da Bonelli. Responsável por histórias clássicas como “As noites de lua cheia”, “A zona do crepúsculo”, “Uma voz vinda do nada” e tantas outras, a caraterística de seu traço (também de Grassani) está gravada na retina dos fãs de Dylan Dog. Nesta entrevista, ele fala sobre o início do personagem na Itália e sobre como é trabalhar em parceria com outro desenhista.


Você começou a trabalhar com o personagem ainda recém-nascido, o viu crescer, se tornar um fenômeno editorial e posteriormente se consolidar como um fumetti icônico. O quê Dylan Dog significa para você? E o quê ele significou para a sua carreira como desenhista?
Montanari:
Como já se é sabido, eu era um desenhista com uma carreira extensa e conhecido pela quantidade de trabalhos realizados para variados editores. Dylan Dog é o meu “estandarte”: a “jóia da coroa” de uma carreira.

Você que viveu aquela época pode explicar um pouco melhor: como foram os primeiros meses de Dylan Dog nas bancas? Como Sclavi se portou frente ao “encalhe” das primeiras edições?
Montanari: Os primeiros meses – e em particular a primeira edição – criaram grandes preocupações na redação, visto que os números de venda não eram dos mais encorajadores. Felizmente, a partir do número 3 em diante, a situação melhorou consideravelmente.
Quanto à “reação” de Tiziano após o “fracasso” inicial: nenhuma. Ele não se abalou nem um pouco em nenhum momento (quem o conhece  pode entender o que digo!).

Você trabalha em par com o Ernesto Grassani desde meados da década de 1970. Como vocês fazem a divisão do trabalho? E como um complementa ao outro na hora de desenhar?
Montanari: Grassani foi um dos desenhistas que compuseram meu “grupo de trabalho”. Ernesto Grassani e Claudio Piccoli sempre foram os que melhor se integraram ao meu estilo de desenho.
A divisão do trabalho ocorre desta maneira: recebo o roteiro e o leio várias vezes para escolher os quadros mais adequados ao trabalho de Grassani (cerca de setenta quadros por edição). Ele, por sua vez, os desenhará a lápis, reservando para mim as partes em que Dylan aparece mais (permitindo que o rosto de Dylan mantenha as mesmas características ao longo da edição). A finalização da arte é feita exclusivamente por mim, permitindo que o desenho final possa ser totalmente uniforme.
Também cabe a mim a tarefa de preparar as “model sheets” dos personagens que compõem a história.

Quem foi o responsável por trazer vocês ao staff de Dylan Dog?
Montanari:
Fui convidado por Sergio Bonelli e Decio Canzio, que já conheciam meu trabalho.

Você e Ernesto desenharam quase uma centena de histórias para Dylan Dog (89, até onde pesquisei). Você tem preferência por alguma delas?
Montanari: É difícil fazer uma classificação entre as “minhas criaturas”… Posso indicar “A dama de negro” e “O castelo do medo” (nºs 13 e 12 da Mythos), “La regina delle tenebre” (inédita no Brasil) e “Fear” (inédita no Brasil)

Qual a diferença entre os roteiros de Sclavi e os outros roteiros? O que ele tinha de “especial”?
Montanari: Pergunta difícil… Eu deveria dizer que a diferença é “abissal”, mas não gostaria de desmerecer o trabalho de nenhum dos outros roteiristas.

Desde 1998 até 2010, apenas você e Ernesto desenharam para Maxi Dylan Dog. Como se deu a decisão da Bonelli em lançar esta série contando exclusivamente com os desenhos de vocês?
Montanari: É uma ideia que nasceu na própria redação, frente ao fato de que em dois produzimos muito. Felizmente, o experimento funcionou.

Depois de um longo período sem trabalhar na série regular, vocês retornaram em “Graphic Horror Novel” – que recebeu muitos elogios por parte dos leitores italianos. O quê esta edição tem de especial?
Montanari: É um “experimento”… Não sei se o “experimento” acabou nessa edição… Vamos ver o que acontece.

Você, particularmente, também trabalhou em Martin Mystère. Como é trabalhar com Alfredo Castelli? E quais as semelhanças (e diferenças) entre ele e Sclavi?
Montanari: Alfredo é um amigo. Não consigo fazer uma comparação entre os dois… Eles tem em comum o imenso talento e a pouca eloquência.

Que outros projetos você desenvolve além de Dylan Dog?
Montanari: Para um pessoa na minha tenra idade, Dylan Dog  já basta e sobra!


Agradecemos a Giuseppe Montanari pela entrevista e desejamos sucesso a ele e a Ernesto Grassani no restante de suas carreiras.